Reflexões de Mais Uma Primavera
Mais um dia amanheceu. Hoje, porém, é diferente: carrega a alegria e o peso de mais uma primavera a ser celebrada.
A luz do dia invade a janela. Pulo da cama como quando o celular não desperta e o dia já começa correndo.
As horas avançam, e vou ajustando meus planos para caber na agenda cronometrada.
Às vezes me pego ansiando por um dia em que a vida não pareça uma maratona constante.
Preparo as marmitas, penduro roupa, deixo o pão assando, sem dar tempo nem de tomar um banho ou olhar a natureza pela janela.
Um dia como outro qualquer, mas que, no fundo, parece uma nova largada para aquilo que ainda tenho a alcançar.
No caminho para o trabalho, contemplo uma paisagem de tirar o fôlego.
Abro a janela do carro só para sentir o gostinho de vê-la a olho nu.
O vento gelado faz doer a cabeça e arrepia o corpo, me devolvendo a sensação de estar viva.
Em pouco tempo, já estou diante do computador, repetindo semanas em dias que parecem iguais.
A brevidade que transforma o olhar
Ouço músicas que se repetem ao longo dos dias para desacelerar a mente inquieta, atravessada pelas notícias devastadoras da partida trágica de alguém.
A brevidade da vida é algo que ficou marcado na minha caminhada este ano.
Comemorar mais uma primavera enquanto muitos perdem pessoas amadas trouxe uma responsabilidade maior: viver com mais intensidade e propósito.
Afinal, não sabemos quanto tempo ainda temos para desfrutar da beleza que é a vida.
Os dias têm passado depressa, sem pedir licença para o que deixamos para depois.
Os filhos que ontem eram bebês estão se tornando crianças.
O cabelo do marido, antes escuro, já ganhou muitos tons de branco, assim como as rugas marcadas na testa.
Ouço pessoas da adolescência falando com saudade da escola. E eu observo tudo isso com certa distância — talvez por sempre ter me sentido um pouco fora do lugar.
Carrego um olhar romântico sobre a vida, e ele parece ter se aprofundado com o tempo.
Mesmo depois de tantos anos, ainda me surpreendo com a beleza das coisas simples.
Talvez isso tenha me protegido de algumas duras armadilhas da mente.
Até mesmo os erros trouxeram aprendizados que talvez eu demorasse uma vida inteira para alcançar.
No fim, talvez seja isso que eu queira guardar comigo ao longo dos anos: não apenas o tempo vivido, mas a capacidade de continuar me encantando com ele.
Que eu não perca esse olhar que insiste em encontrar beleza até onde o dia parece comum.
Porque, no fim, não é o tempo que define a vida — é a forma como a gente atravessa o que ele traz.
E que, entre uma primavera e outra, eu ainda consiga parar por um instante… só para perceber que estar aqui já é, por si só, extraordinário.
